Vacina brasileira contra dependência de cocaína e crack avança para nova fase

 


Com patentes concedidas e quase R$ 19 milhões em investimentos, projeto da UFMG se prepara para testes em humanos e coloca o Brasil na vanguarda da ciência contra o vício

O Brasil avança em uma das pesquisas mais inovadoras do mundo no enfrentamento à dependência química. A vacina Calixcoca, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, entra em uma fase decisiva após a concessão de patentes no Brasil e nos Estados Unidos e a garantia de cerca de 18,8 milhões de reais em investimentos públicos para a realização de testes clínicos em humanos.

A Calixcoca é uma vacina terapêutica, diferente das vacinas tradicionais usadas para prevenir doenças infecciosas. Seu objetivo é auxiliar no tratamento da dependência de cocaína e crack. O imunizante estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos que se ligam à molécula da cocaína ainda na corrente sanguínea, impedindo que a substância chegue ao cérebro. Sem alcançar o sistema nervoso central, a droga deixa de provocar os efeitos psicoativos que reforçam o ciclo do vício.

Os estudos realizados até agora ocorreram em fase pré-clínica, com testes em animais. Os resultados indicaram que a vacina é capaz de bloquear os efeitos da cocaína e reduzir comportamentos associados à dependência. Pesquisas também apontaram impactos positivos em fêmeas grávidas expostas à droga, com diminuição de abortos espontâneos e melhora na saúde dos filhotes, ampliando o potencial de uso futuro da tecnologia.

O avanço do projeto foi consolidado em 2025, quando a UFMG, o Governo de Minas Gerais e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais anunciaram oficialmente as patentes e o financiamento para a próxima etapa da pesquisa. O recurso será destinado à preparação e execução dos testes em humanos, etapa essencial para avaliar segurança, dosagem e eficácia da vacina antes de qualquer pedido de aprovação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Apesar do progresso científico, a Calixcoca também esteve no centro de uma disputa judicial envolvendo pesquisadores da equipe original. A ação diz respeito à divisão de um prêmio internacional de 500 mil euros concedido ao projeto em 2023. O caso levantou discussões sobre gestão de recursos e reconhecimento em pesquisas acadêmicas de grande impacto, mas não interrompeu o andamento científico da vacina.

O desenvolvimento da Calixcoca ocorre em um cenário de crescimento das apreensões de cocaína no Brasil, especialmente em Minas Gerais, onde houve aumento expressivo das operações contra o tráfico em 2025. Especialistas destacam que, enquanto as forças de segurança atuam no combate à oferta da droga, a vacina pode se tornar uma ferramenta estratégica para reduzir a demanda, ajudando pessoas que enfrentam dificuldades para manter a abstinência.

Pesquisadores reforçam que a vacina não deve ser vista como uma solução isolada. A expectativa é que ela seja utilizada como parte de tratamentos integrados, associados a acompanhamento médico, psicológico e social. Ainda assim, o avanço do projeto coloca o Brasil em posição de destaque no cenário internacional e abre caminho para uma nova abordagem no cuidado com pessoas dependentes de cocaína e crack.

Se os testes em humanos confirmarem os resultados obtidos até agora, a Calixcoca poderá representar um divisor de águas na saúde pública, ampliando as possibilidades de tratamento e recuperação para milhares de pessoas nos próximos anos.

BOX | O que é a Calixcoca

Tipo: vacina terapêutica

Objetivo: auxiliar no tratamento da dependência de cocaína e crack

Desenvolvedora: Universidade Federal de Minas Gerais

Estágio atual: preparação para testes em humanos

Investimento anunciado: cerca de R$ 18,8 milhões

Status: não disponível no SUS e ainda sem aprovação da Anvisa

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