Por Islania Lima
O Dia Internacional da Mulher, celebrado ontem, não pode ser apenas uma data de homenagens ou mensagens simbólicas. Para nós, mulheres que ocupamos espaços no mercado de trabalho, especialmente na comunicação, ele também precisa ser um momento de reflexão profunda sobre desafios que ainda persistem. Ao longo de nossas trajetórias profissionais, muitas de nós já enfrentamos situações de constrangimento, desrespeito e violência silenciosa. O assédio, seja moral ou sexual, ainda é uma realidade presente na vida de milhares de brasileiras que apenas buscam exercer sua profissão com dignidade e segurança.
Os números mais recentes confirmam que o problema é estrutural. Dados divulgados pela Justiça do Trabalho mostram que somente em 2025 foram registrados 142.828 novos processos por assédio moral no ambiente de trabalho, representando aumento de cerca de 22% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o Brasil registrou 12.813 ações por assédio sexual, crescimento de aproximadamente 40%. As mulheres aparecem como vítimas em cerca de 70% desses casos, o que evidencia como as desigualdades de gênero ainda impactam diretamente o ambiente profissional no país.
Mesmo com esses registros, sabemos que a realidade pode ser ainda mais grave. O assédio no trabalho ainda é amplamente subnotificado. Muitas mulheres não denunciam por medo de perder o emprego, sofrer represálias ou comprometer suas carreiras. Em diversos ambientes profissionais, comentários inadequados, convites insistentes ou humilhações públicas ainda são tratados como brincadeiras ou exageros. Essa cultura do silêncio cria ambientes hostis que afetam a saúde mental, a confiança profissional e muitas vezes afastam mulheres de espaços onde deveriam estar em igualdade de condições.
No jornalismo e na comunicação, esse cenário se torna ainda mais sensível. Nossa profissão exige presença em espaços públicos, cobertura de eventos, entrevistas com autoridades e relações constantes com diferentes fontes. Nesse contexto, muitas profissionais já vivenciaram comentários sobre aparência durante entrevistas, abordagens inadequadas em coberturas ou tentativas de desqualificar seu trabalho. Também existe o assédio moral dentro das próprias estruturas profissionais, quando ideias são ignoradas, competências são questionadas ou quando há pressão psicológica para silenciar incômodos.
Entre as formas mais comuns estão o assédio moral, caracterizado por humilhações repetidas, constrangimentos e pressão psicológica no ambiente de trabalho, e o assédio sexual, quando alguém utiliza posição de poder ou insistência para fazer investidas ou comentários de conotação sexual. Há ainda as chamadas microviolências, que aparecem em forma de piadas machistas, comentários sobre aparência, interrupções constantes durante reuniões ou apropriação de ideias apresentadas por mulheres. Pequenas atitudes que, somadas, constroem um ambiente desigual e muitas vezes hostil.
Diante dessa realidade, precisamos avançar também nas soluções. Combater o assédio exige mudanças culturais dentro das empresas, redações e instituições públicas. É essencial que organizações estabeleçam códigos de conduta claros, criem canais seguros de denúncia e garantam proteção às vítimas. Ambientes de trabalho saudáveis dependem de lideranças comprometidas com respeito, diversidade e igualdade de oportunidades.
No Brasil existem caminhos institucionais para denunciar essas situações. Casos de assédio no trabalho podem ser registrados no Ministério Público do Trabalho, em sindicatos da categoria, nas ouvidorias das instituições ou diretamente na Justiça do Trabalho. Situações de violência contra a mulher também podem ser denunciadas pelo canal nacional Ligue 180, que funciona em todo o país e orienta vítimas sobre seus direitos. O Disque 100 também recebe denúncias de violações de direitos humanos, e em situações de risco imediato a orientação é procurar a polícia pelo telefone 190.
Ontem celebramos o Dia Internacional da Mulher. Hoje, seguimos lembrando que respeito, segurança e igualdade precisam ser práticas diárias, não apenas discursos em datas simbólicas. Nós, mulheres da comunicação, contamos histórias todos os dias e ajudamos a construir narrativas sobre a sociedade em que vivemos. Também precisamos continuar contando as nossas histórias e denunciando aquilo que ainda precisa mudar. Porque nenhuma mulher deveria ter sua dignidade ameaçada no exercício de sua profissão. E porque o assédio nunca deve ser tratado como parte do trabalho.

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